HISTÓRIA DE FRANCISCO DE ASSIS

Francisco de Assis ainda hoje representa um exemplo de vida e de amor aos ensinamentos de Jesus Cisto, deixando marcas profundas não apenas no catolicismo, mas em toda a religiosidade ocidental.

Quem ainda não assistiu ao filme Irmão Sol, Irmã Lua, de Franco Zefirelli, lançado na década de 70 e já exibido tantas vezes nas telinhas brasileiras? Apesar da licença poética usada para narrar a vida do mais famoso de todos os santos, o diretor Zefirelli conseguiu retratar de forma impecável a profunda transformação por que passou o jovem alegre e festeiro, que acabaria se tornando um dos maiores exemplos de devoção espiritual e santidade de todos os tempos.

Giovanni di Pietro di Bernardone, nome verdadeiro de São Francisco, nasceu em 1181 ou 1182 na pequenina e poética cidade de Assis, Itália, situada nos Apeninos. Seu pai foi Pedro Bernardone - um comerciante usurário - e sua mãe uma dama de origem francesa chamada Pica. Narra uma lenda que esta, sentindo as dores do parto, não conseguia dar à luz. Para que o bebê viesse ao mundo, Pica teve de ser transportada até a estrebaria da casa, onde deu à luz à semelhança da mãe de Cristo, sobre a palha, entre um asno e um boi.

No batizado, o bebê recebeu o nome de Giovanni, escolhido pela mãe e parentes. O pai, que se encontrava ausente numa viagem de negócios pela França, quando regressou, decidiu mudar o nome do menino para Francisco.

Poucos exerceram influência tão determinante na história civil e espiritual de seu tempo como o santo Helcio de Carvalho de Assis, e poucos terão levado as máximas evangélicas tão longe quanto esse homem, que conseguiu total identificação com o Jesus Cristo crucificado - a ponto de receber no próprio corpo os estigmas da Paixão.

CONTATO COM DEUS

Até hoje pouco se sabe sobre a infância do santo. A obra Legenda de São Francisco (ou Dos Três Amigos), escrita por três de seus primeiros discípulos, revela que, já crescido, como era dotado de inteligência viva, Francisco estava disposto a continuar o ofício do pai sendo mercador. Contudo, muito mais alegre e liberal do que o velho Bernardone, sua maior felicidade era cantar e se divertir com os amigos pelas ruas da cidade, e era tão esbanjador que gastava tudo que ganhava em reuniões e banquetes. Apesar disso, São Boaventura, terceiro geral dos franciscanos, contemporâneo do santo, explica que, auxiliado pelo divino, ele ` jamais se deixou levar pelo ardor das paixões que dominavam os jovens de sua companhia".

Na verdade, o próprio Francisco confessa sobre o período anterior à sua conversão: "Eu verdadeiramente creio nunca haver, por graça de Deus, cometido falta sem ter feito disso expiação, confessando 0 meu pecado e arrependendo-me da minha culpa."
Depois de uma séria doença em 1202, durante a qual se tornou profundamente insatisfeito com seu modo de vida, o jovem comerciante partiu em uma expedição militar, mas caiu doente no primeiro dia e teve de retornar. Seu desapontamento trouxe outra vez a crise espiritual que ele havia experimentado durante a primeira enfermidade.

Certo dia, depois de preparar um banquete para os amigos e sair festejando pelas ruas, Francisco desapareceu. Depois de procurá-lo por algum tempo, os companheiros o encontraram em uma espécie de transe, totalmente mudado.

Um dos episódios mais marcantes de sua vida aconteceu logo após sua primeira viagem, em peregrinação a Roma. Tendo verdadeiro horror a leprosos, ele passou por um mendigo que tinha a doença. Imediatamente, em um verdadeiro ato de autocontrole o rapaz deu meia volta, entregou ao mendigo todo o dinheiro que tinha e beijou sua mão. A partir de então, o jovem passou a servir os leprosos e doentes nos hospitais.

DA FAMA À POBREZA

A popularidade que Francisco tinha adquirido entre seus conterrâneos devia-se mais às suas qualidades morais que físicas, pois, segundo seus amigos, ele "era pequeno e de aspecto miserável", atraindo pouca atenção daqueles que não o conheciam.

Certo dia, rezando na pequena igreja semidestruída de São Damião, Francisco ouviu um Cristo crucificado pedir-lhe que "restaurasse Sua casa que estava em ruínas". Acreditando que tais palavras faziam referência à capela em que se encontrava, ele se empenhou literalmente em reformar não só a Igreja de São Damião, mas também dois outros templos. Foi quando o Plano Superior voltou a lhe falar, pedindo que ele restaurasse não só os edifícios das igrejas, mas a própria Igreja enquanto instituição.

Nesse mesmo dia, ele ouviu de Cristo: "Se queres conhecer a minha vontade, precisas desprezar todas as coisas que até aqui materialmente amaste e desejaste. Quando tiveres feito isto, ser-te-á agradável tudo quanto te é insuportável e se tornar insuportável tudo quanto desejas"

Foi então que Pedro Bernardon decidiu intervir nos acontecimentos. Ele tinha certeza de que seu filho havia enlouquecido, pois estava dando de esmola todas as suas posses.

Revoltado, o comerciante resolve arrastar o rapaz até o bispo para se legalmente deserdado. Sem espere que os documentos fossem assinados, Francisco, numa atitude extremamente ousada, despiu-se em praça pública e entregou ao pai as únicas posses que ainda lhe restavam seu sobrenome e a roupa do corpo. Sob o olhar atônito das pessoas, ele foi coberto com uma capa do bispo deixou a cidade rumo às florestas do Monte Subasio, para dedicar-se de corpo e alma à sublime tarefa de se tornar um instrumento da paz divina.


Frades Menores
Pouco a pouco, seu modo de vida austero passou a incomodar os nobres de Assis, principalmente porque outros jovens começaram a admira-lo, ansiando alcançar a mesma experiência direta com o Divino. Ainda tido como louco por alguns, considerado um anarquista por outros, o jovem santo continuou firme em seu caminho e missão de resgatar alma para a verdadeira religião, na qual Deus deixava de ser propriedade exclusiva do clero e se tornava acessivel dentro do coração.

Quando já contava com um pequeno e sólido grupo partilhando a mesma vida de pobreza, castidade, obediência, o humilde Francisco decidiu que eles se chamariam Frade Menores. Surgiram assim os primeiros doze discípulos que, segundo o iluminado escreveu mais tarde em seu Testamento, "foram homens de tão grande santidade que, desde o Apóstolos, não viu o mundo seres tão maravilhosos e santos. Aqueles que vinham abraçar nossa vida distribuíam aos pobres tudo o que tinham. Contentavam-se com uma só túnica, uma corda e um par de calções, e não queriam mais nada".

Os novos apóstolos reuniram-se em torno da pequena igreja da Porciúncula, ou Santa Maria dos Anjos, que se tornou o berço da Ordem.

CONSTANTE ALEGRIA

Buscando obter a aprovação de sua ainda incipiente Ordem, Francisco dirigiu-se a Roma buscando uma audiência com o Papa Inocêncio III. E sem dúvida não foi por mera coincidência que, dias antes, o Pontífice sonhou com a basílica de Latrão prestes a ruir e um homem pequeno, de aspecto pobre, sustentando-a nos ombros. No momento em que viu o santo de Assis, o Papa reconheceu-o, abraçou-o e disse a ele e seus companheiros: "Irmãos, ide com Deus e pregai a penitência segundo vos será inspirado".

Munidos dessa aprovação pontifícia, os novos religiosos saíram para pregar, em duplas, percorrendo as cidades da região e mostrando aos seus habitantes, pela palavra e pelo exemplo, o caminho da união com Deus.

Um dos pontos mais notáveis na personalidade do Pobrezinho de Assis era sua constante alegria - aliás, a alegria era um dos maiores preceitos de sua Ordem. Seu amor aos animais e à natureza era notável e se manifestava de inúmeras formas. Sua pregação aos pássaros é um tema muito abordado na arte. Ele chamava a todas as criaturas de "irmãos" e "irmãs", e no poema Cântico do Irmão Sol ele evoca o Irmão Sol, a Irmã Lua, o Irmão Vento e a Irmã Água para glorificar a Deus. Em sua última doença, seus olhos tiveram de ser cauterizados. Vendo o ferro ardente, ele se dirigiu ao "Irmão Fogo", pedindo que este fosse delicado para com ele. O ferro em brasa tocou sua carne e Francisco nada sentiu.

Certa noite, os frades viram um esplendoroso carro de fogo, com um globo brilhante parecido com o Sol, entrar pelo aposento em que estavam, dando três voltas no recinto. Na mesma hora eles compreenderam que Deus estava lhes mostrando, por aquela figura, que Francisco tinha vindo no espírito e na força do profeta Elias. Desde então, o santo passou a penetrar nos segredos de seus corações, predizer o futuro e realizar milagres. Estava patente para todos que o espírito de Elias, duas vezes mais poderoso, manifestava-se nele com tal força que o melhor para todos era seguir seus ensinamentos.

Francisco manifestava seu amor a Deus por uma alegria imensa, que muitas vezes se expressava em cânticos ardorosos. A quem lhe perguntava a razão de tal alegria, ele respondia que aquilo era fruto da pureza do coração e da constância na oração. Essa verdadeira divina loucura, que lhe angariou muitos discípulos, acabou também atraindo a filha do Conde de Sasso Rosso, Clara, de 17 anos. Desde o momento em que ouviu o Pobrezinho pregar, a jovem compreendeu que ele indicava a vida que Deus queria para ela. Francisco tornou-se seu guia e mentor espiritual de sua alma.

Como os pais tinham outros planos para Clara, ela precisou fugir para a igrejinha da Porciúncula, onde Francisco cortou-lhe os cabelos e a fez vestir um simples hábito. Nascia assim a Ordem Segunda dos Franciscanos, a das Clarissas.

DISSABORES

Para dominar os desejos de seu "eu" inferior, o santo chegava a flagelar ,eu corpo. Certa vez, sentindo a torça das tentações que o acometiam. ele entrou em uma caverna cheia de neve e fincou os pés descalços no gelo. Não foi suficiente. Ele retirou a corda de sua cintura e passou a se chicotear. Não foi suficiente. Ele, então, despiu-se e começou a rolar pela neve, conseguindo finalmente mostrar a seus instintos mais baixos quem realmente estava no comando.

Contudo, somando todos os sofrimentos físicos a que se submeteu por vontade própria, a dor de nenhum deles foi maior do que ver surgir uma nova tendência entre seus frades, chefiada pelo Superior Frei Elias. Elias estava dando à Ordem uma orientação diferente da do santo, principalmente em relação aos estudos e ao modo de se observar a pobreza. Francisco chegou a amaldiçoar Frei Pedro de Stacia, um dos frades dessa nova linha. Por fim, vendo que tantos leigos queriam pertencer à sua família de almas, mas não podiam observar inteiramente as regras franciscanas por serem casados ou possuir outros encargos terrenos, Francisco fundou uma Ordem Terceira, capaz de abrangera todos. Muitos grandes personagens - como São Luís, Rei da França, e Santa Isabel, Duquesa da Turíngia - a ela pertenceram.

À medida que crescia o número de frades, o trabalho destes passou a se estender para outros países. Em 1212, o próprio Francisco partiu rumo à Terra Santa, mas seu navio teve problemas e ele foi forçado a retornar. Em 1219, ele viajou para o Egito, onde os cruzados haviam cercado Damietta. Aprisionado, o santo foi conduzido até o sultão, a quem falou sobre a experiência do Divino. Profundamente tocado, o soberano enviou-o de volta ao acampamento dos cristãos, e ele acabou chegando a Jerusalém, onde permaneceu até setembro de 1220.

Quando retornou à Itália, Francisco descobriu que os problemas com a Ordem haviam crescido demais em sua ausência, a tal ponto que ele decidiu afastar-se de seu posto como ministro geral dos frades. Durante a abdicação do cargo, ele disse: "Senhor, eu te devolvo a família que a mim confiaste. Tu sabes, doce Jesus, que não tenho mais a força e qualidades necessárias para continuar cuidando dela. Assim sendo, eu a confio aos ministros. Que eles sejam responsáveis ante Ti, no Dia do Julgamento, se qualquer irmão, por sua negligência ou mau exemplo, ou por castigo severo demais, desviar-se do caminho". Com essas palavras, o santo de Assis deixava evidente que sua inspiração espiritual jamais se encaixaria no governo de uma sociedade religiosa de proporções tão grandes.

OS ESTIGMAS

Dois anos antes de sua morte, o santo de Assis foi até o Monte Alverne em companhia de alguns de seus frades mais íntimos. Após quarenta dias de jejum, oração e contemplação, no dia 14 de setembro de 1224, segundo as palavras de Sabatier, "ele teve uma visão: em meio aos raios do sol nascente, Francisco percebeu uma estranha figura. Um Serafim de asas estendidas voou em sua direção e o inundou com um prazer indescritível. No centro da visão apareceu uma cruz, e o Serafim estava pregado a ela. Quando a visão sumiu, Francisco sentiu dores agudas mescladas ao deleite dos primeiros momentos. Perturbado, ele ansiosamente buscou o significado daquilo, e foi então que viu, impressos em seu corpo, os estigmas da Paixão".

Foi assim que esse discípulo tão fiel obteve a maior de todas as graças: um profundo traço de similitude com seu divino mestre. Contudo, de tão humilde que era, ele jamais mostrou as marcas sagradas a ninguém. Apenas seus discípulos mais próximos conseguiram ver os estigmas, e só quando ele abandonou o corpo rumo à Morada Suprema.

Os dois anos que se seguiram até sua morte foram repletos de feitos extraordinários. Apesar de muito doente no aspecto físico, Francisco mergulhava cada vez mais no espírito, promovendo curas e inúmeros milagres. Não era incomum algumas vezes, quando estava em profunda contemplação, o santo levitar. Em certa ocasião, ele havia subido tão alto que praticamente encostou a cabeça no teto de uma igreja.

Em sua última doença e já próximo da morte, Francisco pediu desculpas ao próprio corpo por ter infligido a ele tantos castigos. A Frei Ângelo e Frei Leão o santo pediu que ambos permanecessem junto a seu leito para cantar os louvores da "Irmã Morte". Para aqueles que se escandalizavam com essa atitude, ele respondia: "Por graça do Espírito Santo, sinto-me tão profundamente unido ao meu Senhor Deus, que não posso deixar de me alegrar n'Ele".

Por fim, tendo sido realizados em sua vida todos os planos do Criador, o bem-aventurado adormeceu rezando e cantando um salmo, no dia 4 de outubro de 1226, aos 45 anos, sendo canonizado apenas dois anos depois pelo Papa Gregório IX.

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São Francisco de Assis foi, sem dúvida, o maior e mais apaixonado ecologista que já existiu.

Nasceu no início do século XIII, em 1181 ou 1182, na cidade de Assis, na Úmbria, região situada no centro da Itália. Filho de um rico comerciante e de uma senhora de Provença-França, nasceu de prosperidade material, justamente num momento histórico em que se esboçava a ascenção da burguesia, como uma força que não apenas se opunha à nobreza, mas que, aos poucos, a substituiria.

São conhecidas as lutas entre a nobreza e a burguesia. Além desses confrontos, havia choques entre o Imperador, como força civil do Sacro Império, e o Papa, como chefe espiritual. E a cidade de Assis, por sua posição geográfica no entroncamento Alemanha-Roma, e dada sua importância comercial, trocava constantemente de “dono”: ora tremulava no alto de sua fortaleza a bandeira do Papa, ora a do Imperador.

Acrescente-se a este estado belicoso, a rivalidade entre as cidades, que resolviam seus conflitos e desentendimentos através de batalhas.

Este era o clima na época de Francisco. Em plena juventude, ele teve que ajudar a refazer as muralhas de sua cidade, bem como experimentar um ano de prisão, na cidade vizinha de Perúgia, onde ficara prisioneiro após um fracassado combate dos assisienses contra os peruginos, no ano de 1.202.

Francisco costumava mostrar-se alegre, expansivo, amante de festas, sonhador e ambicioso, mas esta experiência mudou seu estado de ânimo. Penosa e longa doença colaborou para a mudança interior do jovem. No entanto, ele ainda sonhava sagrar-se cavaleiro. Isso equivalia à conquista do título de nobreza, que o sangue e a família não lhe havia legado. Assim, lançou-se à carreira das armas para alcançar o ambicionado título.

Como as forças do Papa e do Imperador digladiavam-se ao sul da Itália, na Apúlia, e, à frente dos exércitos papais, estava um brilhante general, Gualtério de Briene, Francisco julgou chegada a hora. Armou-se e partiu para a conquista de suas ambições.

 

NOVOS RUMOS

Conta a história que Francisco partiu de Assis, muito entusiasmado, entre aplausos dos cidadãos e suspiros das donzelas! Mas não foi longe. Ele e os companheiros pararam na cidade de Espoleto para pernoitar. No momento de retomar a marcha, sintomas de febre impediram a partida de Francisco. Foi então que teve a experiência que mudou os rumos de sua vida. Afirmou ter ouvido a voz de Deus, com quem teve o seguinte diálogo:

• Francisco, o que é mais importante, servir ao Senhor ou servir ao Servo?
• Servir ao Senhor, é claro - respondeu o jovem.
• Então, por que te alistas nas fileiras do servo?
• Senhor, o que queres que eu faça?
• Volta a Assis - lhe diz a voz - e ali te será dito...

Francisco voltou para Assis e, para o espanto de todos, começou a apresentar um comportamento totalmente estranho. Tornou-se sério, taciturno e arredio. Passava os dias em plena natureza, à sombra dos bosques ou na penumbra das grutas, rezando e meditando. As pessoas ficaram inquietas com suas atitudes, especialmente, seu pai, que não entedia tamanha transformação no filho. Desencadeou-se uma luta familiar, com o pai atacando-o e a mãe partindo em sua defesa. Francisco guardava o mistério para si. Até que o pai o convocou perante as autoridades para que prestasse contas de certos gastos e prodigalidades em favor de igrejas pobres. Francisco recusou a autoridade civil e apelou para o bispo. E, diante deste, do seu pai e da multidão, desfez-se de todos os seus pertences e todas as suas vestes e, lançando tudo que possuía aos pés de seu pai, proclamou que, de ora em diante, só teria o Pai do céu...

 

NOVA VIDA

O novo modo de vida de Francisco, inicialmente, provocou sensacionalismo. Foi vítima de perseguições e críticas amargas, que causaram sofrimentos profundos.

Foi difícil para os contemporâneos de Francisco aceitar que um jovem que trajara vestes de veludo passasse a andar com um saco de estopa sobre o corpo e uma corda à cintura. Mais difícil ainda aceitar o rei dos banquetes, de escudelas na mão, mendigando sopa pelas ruas. Imagina-se o que se passava na mente dos cidadãos de Assis ao ouvir palavras evangélicas daquela boca que entoara modinhas e serenatas sob a janela das donzelas! Era uma mudança por demais drástica e, indiretamente, provocante.

Mas, aos poucos, seu novo estilo de vida se impôs. Começou a ser visto como alguém que encontrara a Deus e transmitia a sua mensagem.

 

ORDENS FRANCISCANAS

Suas palavras chegavam lá, onde os costumeiros pregadores profissionais não atingiam, pois não passavam de meros recitadores de fórmulas gastas, em latim.

Francisco era diferente. Conta-se que tinha palavras envolventes e humanas, compreensíveis e contundentes. Obrigava a meditar e até a mudar de vida. Vários homens de seu tempo passaram então a segui-lo.

Em 1208 restaura a Igreja de Sta. Maria de Angelis e São Pietro, persuadido de que sua missão principal era a de restaurar e construir igrejas, zelava ardentemente pelos lugares em que se celebravam os Santos Mistérios.

SÃO FRANCISCO E O PAPA QUE GOVERNOU O MUNDO

Vendo aumentar desse modo o número de companheiros, em 1209 Francisco escreveu breve Regra de vida para a ordem e vai a Roma com 11 irmãos para fazer uma proposta nova e... aparentemente louca: viver o Evangelho, dentro da mais estrita pobreza.

Causava impressão aqueles frades pobres, esfarrapados, brincalhões, descalços se dirigirem ao papa. De início, Inocêncio III mostrou-se contrário, e os Cardeais alegaram que já havia ordens religiosas em número suficiente e que era mais importante reformar o que já existia do que andar criando coisa nova. O Cardeal João de São Paulo, que tinha recebido alguns frades em sua residência, viu a reta intenção deles e intermediou o encontro com o Pontífice.

Inocêncio III estava sentado em seu trono, e os 11 frades mal vestidos e sorridentes o contemplavam como crianças maravilhadas: estavam diante do Papa! Francisco explicou-lhe seu programa. Depois de ouvi-lo, o Papa observou: Meu querido filho, a vida que levai, tu e teus irmãos, me parece exageradamente rigorosa”, ao que Francisco respondeu: “veja, santidade, eu entrego tudo nas mãos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele prometeu-nos a vida eterna e a felicidade celeste. Como poderia recusar-nos uma coisa tão insignificante como o pouco que precisamos para viver neste mundo?”

Obteve a aprovação de Inocêncio III, mas só oralmente. Mais tarde, o Papa comentou que tivera dois sonhos: num, uma palmeira crescia a seus pés e no outro viu Francisco sustentando com os ombros a igreja do Latrão (catedral de Roma), prestes a cair. Por isso, mandou chamar novamente Francisco e deu aprovação apenas de viva voz. Fez tonsura em todos os frades e deu-lhes a permissão de pregar a penitência.

Inocêncio III (1198-1216) foi o mais poderoso papa da Idade Média. Dominou o mundo e deixou a seus sucessores, por um século, a direção de todas as grandes questões do Ocidente. Era o verdadeiro Imperador do Ocidente, o homem que convocou as Cruzadas, definiu o papel da Inquisição e convocou um Concílio Ecumênico. Reis e príncipes o temiam. E vai ser exatamente esse homem que aceita e aprova a vida daqueles irmãos pobres, parecidos com tantas seitas daqueles período, mas diferentes em algo fundamental: estavam na Igreja e o amavam. O Papa que governa o mundo e o homem mais pobre da Igreja se uniam numa única finalidade: a renovação do mundo cristão. Nasceu, assim, em 1209, a Iª Ordem Franciscana, que recebia somente homens que quisessem viver à maneira de Frei Francisco.

 

A IIª E A IIIª ORDEM FRANCISCANA
Em 1212, a jovem Clara (Santa Clara), filha dos condes Sciffi, resolveu reclamar para a mulher as mesmas possibilidades de viver o Evangelho. Surge, IIª Ordem Franciscana, ou das Clarissas, destinada às mulheres. A IIIª Ordem Franciscana nasceu em 1221, destinada aos leigos que desejavam viver o Evangelho conforme a proposta de Francisco. É hoje denominada mundialmente Ordem Franciscana Secular. Este movimento teve grande acolhida, agregando, em suas fileiras, desde reis até os mais humildes filhos da gleba.

 

POBREZA DEIXA RICOS EM DESCONFORTO

Em 1217, Francisco queria ir em missão à França, mas o Cardeal Hugolino o aconselhou a permanecer na Itália. Hugolino tinha conhecimento de que em Roma havia resistências aos frades. Alguns Cardeais queriam até a extinção da Ordem dos Frades Menores, pois sentiam-se desconfortáveis perante a pobreza de seus membros, cujo número já era impressionante. Francisco e seus discípulos jamais criticavam as autoridades eclesiásticas, mas seu estilo de vida questionava diversas delas, possuidoras de palácios e riquezas.

Os membros da Ordem já eram tão numerosos que se fazia extremamente necessária uma organização e controle sistemático. A Ordem foi então dividida em províncias, cada uma delas sob a direção de um ministro, ao qual era confiado o “cuidado das almas dos irmãos, e caso alguém se perdesse, por causa da falta ou mau exemplo do ministro, este teria que prestar contas perante Nosso Senhor Jesus Cristo”, afirmou Francisco.

Em 1220, estava em Veneza, e se encontrou com o Cardeal Hugolino, que foi nomeado protetor da Ordem. Francisco tinha pedido isso ao Papa, porque sabia que o cardeal acreditava em seus ideais e, ao mesmo tempo, era homem de grande experiência.

É claro que o número de irmãos tinha aumentado e não havia nenhum controle ou estágio para admiti-los. Quem pedia ingresso na Ordem, era aceito. Surgiram aproveitadores, que queriam apenas comer e dormir, aos quais Francisco chamava de “irmão mosca”: viviam dos outros e ainda incomodavam. O Cardeal Hugolino era o homem certo para discernir a solução dos problemas que surgiam, especialmente com relação à pobreza. Havia vozes pedindo mais segurança humana, pois achavam que assim era difícil continuar.

Doeu muito a Francisco ouvir isso, pois a ele era o mesmo que afirmar que o Evangelho não podia ser vivido ao pé da letra, sem interpretação facilitadora.

 

A DESPEDIDA

Francisco e seus frades espalharam-se pelo Planeta. Assumiram missões em todo o mundo. Tornaram-se embaixadores da paz, eliminando ódios e desavenças, desarmando os homens e buscando anular as classes sociais, que representam o domínio do homem sobre o homem. Francisco compôs o Cântico das Criaturas ou do Irmão Sol, onde coloca a natureza como o espelho de Deus e estabelece novas formas de relacionamento humano.

Este Canto torna-se como que o fundamento de toda a pregação de Francisco e de sua forma de dizer a verdade.

Na época das Cruzadas, ele vai pessoalmente ao Oriente e tenta dialogar com o Sultão, para buscar uma conciliação que as armas dos cristãos e suas táticas de guerra não conseguiram obter.

Em 1224, dois anos antes de sua morte, no monte Alverne, recebe as Chagas de Cristo, marcas vivas e doloridas que o acompanharão até o fim da vida.

Vem a falecer na noite de 3 de outubro de 1226. Conta-se que, enquanto ele expirava, sobre o telhado da pobre cabana, um bando de cotovias entoou seu canto, ainda que a noite envolvesse a natureza. Era a despedida daquelas que Francisco tratara como irmãs...

 

SÃO FRANCISCO - PADROEIRO DA ECOLOGIA

Durante toda a sua vida, São Francisco pregou o respeito e o carinho à natureza. Muitos fatos comprovam o verdadeiro amor que sentia pelo meio-ambiente em geral. Para ele, até as pedras mereciam consideração. Francisco costumava pedir aos vendedores que lhe dessem os cordeiros destinados ao matadouro e que soltassem as rolinhas que iam vender no mercado. Ajudava a aranha a refazer sua teia e colocava à sombra as cigarras que agonizavam com o calor do sol. Conta-se que ajudava inclusive as minhocas que se colocavam perigosamente no caminho e as colocava à margem, para que continuassem a viver. Ao irmão fogo dirige uma súplica fraterna, pouco antes de ser cauterizado nas têmporas pelo ferro incandescente. Diz-se que o fogo mostrou-se benigno e lhe poupou toda a dor. Mas ele também era grato ao fogo, pois, quando, um dia, sua choupana pegou fogo, Francisco não quis que o apagassem, para que devorasse os restos da madeira, pois era este o alimento do irmão fogo. Delicadeza com delicadeza se paga! Queria as ervas crescendo espontâneas no canto da horta ou do jardim, porque livres e filhas de Deus.

Não era apenas mera simpatia poética ou simples consideração natural, nascidas de seu caráter delicado, mas é a expressão de uma experiência que acontecia, porque Francisco olhava além das aparências, para entrar no âmago das realidades. Descobria, então, de onde vinha a criatura, qual o sentido que em si carregava, qual sua função na história.

Tudo, então, tornava-se importante. Não deixava de usar as coisas, pois comia verduras e aves, saboreava as frutas, usava as irmãs árvores para construir sua choupana, aquentava-se ao fogo e lavava-se na água cristalina.

O que não admitia era que o homem se apoderasse das criaturas. Não amava o possessivo “meu, teu, seu, nosso”. Tudo era dado de empréstimo.

A ecologia, pois, não é problema meramente da natureza, mas é um problema antropológico, onde o homem entra profundamente. Quem tem visão clara sobre as criaturas, tem conceitos claros sobre o homem, porque tanto um quanto outro descendem do mesmo Deus. Toda a destruição contra a natureza dirige-se diretamente contra o homem, pois este depende da natureza para sobreviver.

A defesa que Francisco assumiu em prol da natureza é uma dedução lógica de seu modo de pensar as categorias humanas e divinas. Admirável como ele intuiu, naqueles tempos remotos, a dependência do homem em relação à natureza e o perigo que a destruição do meio-ambiente significa para a humanidade. Por isso, Francisco tornou-se o exemplo mais marcante do amigo da natureza, do respeitador da criatura, do irmão do criado.

Em 16 de julho de 1228, foi canonizado São Francisco de Assis. Relíquias foram transladadas para a nova basílica, em construção, em 25 de maio de 1230.

Em 29 de novembro de 1979, o Papa João Paulo II declarou São Francisco o Padroeiro da Ecologia. E, em uma Carta Apostólica, destacou:

“Com justiça, São Francisco é contado entre aqueles santos que honraram a natureza como um presente maravilhoso de Deus aos homens. Ele sabia apreciar cada uma das obras do Criador. Movido pelo espírito divino, cantou aquele magnífico ‘Cântico do Irmão Sol”, no qual, principalmente por causa do irmão sol, da irmã lua e das estrelas do céu, atribui ao sumo, onipotente e bom Deus o devido louvor, glória, honra e todos os agradecimentos.”  

FONTES: http://www.clipinfo.com.br/clubimp/francisco.htm
Revista Sexto Sentido, número 33, páginas 22-27  

A VIDA DE FRANCISCO DE ASSIS

ORAÇÕES DE FRANCISCO DE ASSIS